quinta-feira, 29 de maio de 2014

Quem foi, volta

Ele chegou de uma viagem como quem fosse fazer visita, ainda que a casa fosse sua. Amparado por um chapéu cinza, a faixa se fazia enxergar no cabelo e face suados.

Ele chegou como quem já não está mais aqui. Foi recebido por um beijo no rosto pelo seu amor e se queixou de dores na cabeça.

Ele chegou de mochila suja, os olhos não tão atentos de quando estava vivo. Ao me perceber acima de sua cabeça, repetiu a queixa de dor de cabeça.

Ele chegou com olhos de quem não quis partir e na verdade a sua dor não era bem na cabeça, mas sim uma dor outra. A dor de não poder pertencer ao seu lugar, é o que pareceu.

Ele chegou querendo ficar e para ter certeza que não estamos tristes, visitou o meu sonho pra me confortar.


Ele partiu pra dentro da casa de onde nunca vai sair, certo que para vê-lo, basta querer sonhar. 

terça-feira, 6 de maio de 2014

Lentamente

Quantos abraços
cabem
no espaço
que nos separa?

Por querer ficar
sempre um pouco mais
me faço uma planta
que
com paciência
cresce no jardim
em frente à sua
janela

E sem que você perceba
me tornarei uma paisagem
sempre possível
onde seus olhos poderão
repousar

quarta-feira, 2 de abril de 2014

o amor refletido

Tão sublime é o amor
Complexa é a forma
como ele se alimenta

Pode o amor ser aquilo
que desejo
mas não posso dar em troca?

Amar é
mapear o próprio labirinto
nos caminhos ditos
pela boca de quem se ama.

É não querer trocar
a vertigem do abismo
que nos convoca ao mergulho
onde sou e estou no outro.

Amar é não temer
que o espelho dos olhos
se quebre em mil diamantes refletidos
ao pântano deixado
nos passos de quem
(de repente)
decide partir.

Terra distante

A ilha é
um pedaço de terra
que Deus quis manter
pura

Presa na solidão
da água
vê sempre o mesmo
horizonte

O verde da água
e o azul do sal
consomem seu corpo
(de terra)

De longe
vê barcos levando
homens
que acreditam se mover
sem ir a lugar algum

quinta-feira, 13 de março de 2014

Os galos no quintal de Gullar

Os galos
no quintal
de Gullar
comem o milho
plantado na roça
do poema.

A palavra escorre
no olhar duro
e frio
de um galo
que precisa declamar
o poema
de única sílaba.

O branco que antecede o poema

A palavra
aterrissou
na paisagem
(branca)
do papel

Solitária
percebeu a
infinidade fértil
do terreno

Como num parto
a caneta abre
na carne do papel
palavra
por
palavra
para constituir
um sentido
ao pensamento
(torto)
do poeta


entre o beijo
e a plataforma
um
a
   b
      i
        s
           m
                o

Pessoas no metrô
esperam
temerosas
pela porta
 automática
que só abrirá
na estação
errada