terça-feira, 6 de maio de 2014

Lentamente

Quantos abraços
cabem
no espaço
que nos separa?

Por querer ficar
sempre um pouco mais
me faço uma planta
que
com paciência
cresce no jardim
em frente à sua
janela

E sem que você perceba
me tornarei uma paisagem
sempre possível
onde seus olhos poderão
repousar

quarta-feira, 2 de abril de 2014

o amor refletido

Tão sublime é o amor
Complexa é a forma
como ele se alimenta

Pode o amor ser aquilo
que desejo
mas não posso dar em troca?

Amar é
mapear o próprio labirinto
nos caminhos ditos
pela boca de quem se ama.

É não querer trocar
a vertigem do abismo
que nos convoca ao mergulho
onde sou e estou no outro.

Amar é não temer
que o espelho dos olhos
se quebre em mil diamantes refletidos
ao pântano deixado
nos passos de quem
(de repente)
decide partir.

Terra distante

A ilha é
um pedaço de terra
que Deus quis manter
pura

Presa na solidão
da água
vê sempre o mesmo
horizonte

O verde da água
e o azul do sal
consomem seu corpo
(de terra)

De longe
vê barcos levando
homens
que acreditam se mover
sem ir a lugar algum

quinta-feira, 13 de março de 2014

Os galos no quintal de Gullar

Os galos
no quintal
de Gullar
comem o milho
plantado na roça
do poema.

A palavra escorre
no olhar duro
e frio
de um galo
que precisa declamar
o poema
de única sílaba.

O branco que antecede o poema

A palavra
aterrissou
na paisagem
(branca)
do papel

Solitária
percebeu a
infinidade fértil
do terreno

Como num parto
a caneta abre
na carne do papel
palavra
por
palavra
para constituir
um sentido
ao pensamento
(torto)
do poeta


entre o beijo
e a plataforma
um
a
   b
      i
        s
           m
                o

Pessoas no metrô
esperam
temerosas
pela porta
 automática
que só abrirá
na estação
errada

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Quando sou orvalho

Estou ali
caindo
em infinitas
gotas
no telhado

quando chovo
determino
que a primavera
floresça
nos campos
(mesmo que nas
brechas escuras
do cimento)

A ordem é que
a fruta do amor
amadureça no
coração do homem
ao canto
do primeiro
pássaro
da manhã